de quem é esse feed?
ou: mais um post sobre insatisfação com redes sociais
Comentei brevemente no último post aqui do blog sobre uma insatisfação com redes sociais de um modo mais amplo, uma reflexão que já me vem há muitos anos, tendo seus catalisadores na compra e implosão do twitter pelo Kiko do Foguete e minha subsequente migração ao Mastodon. A desilusão com redes sociais não é um fenômeno individual meu, mas sim algo bastante generalizado. Enquanto sociedade, a gente viveu a euforia desses produtos quando eles surgiram e agora estamos tendo que lidar com a absoluta exaustão da onipresença deles (eu aposto que na embalagem do seu papel higiênico tem um QR Code pra que você possa seguir a fabricante no Instagram).
O que eu tô tentando dizer é que tô buscando estar mais intencional com o meu uso desses trecos. Não estou em um ponto de abdicar das redes (uma observação importante: quase sempre, quando digo "as redes", na verdade estou me referindo a uma rede só, o Instagram) como algumas pessoas já fizeram. Acho esse movimento louvável, apesar de distante da minha realidade. Preciso ter um perfil profissional naquela espelunca, afinal de contas. E, pior, preciso admitir que há alguns aspectos da rede que ainda me são interessantes, ainda que eu saiba que a rede como um todo provavelmente faz mais mal do que bem.
Eu sei que esse cigarro vai me matar doutor, mas é que ele me deixa tão calminho…
Dentre os meus incômodos com o Instagram, um que tem se destacado é falta de foco da rede e a falta de controle que eu, enquanto usuário, tenho sobre o conteúdo que vou ver ali. Quando abro o Mastodon, nunca sei exatamente o quê vou encontrar, mas tenho alguma noção de quais rostos vou ver, ao menos. Mais importante ainda: os avisos de conteúdo em cada post, muito comuns por lá, me ajudam a filtrar o que quero ver naquele momento em específico. Estou com cabeça para ler sobre política? Pra ler uma opinião ou análise sobre o imperialismo estadounidense e a insanidade trumpista? Quero ver uma fofoca? Uma opinião sobre um reality show? Isso me interessa naquele momento? Como há um esforço generalizado da própria comunidade por categorizar seus posts e avisar "ei, vou falar sobre isso aqui agora, hein!", eu consigo aplicar esse filtro com muita facilidade.
O Instagram não tem nada disso, o que gera umas situações bizarras: nos stories da mesma pessoa (ou de pessoas diferentes, não importa), vejo uma justaposição: um comentário político sobre o genocídio em Gaza seguido imediatamente por uma selfie sorridente num grupo de amigos. E, não me entenda mal, eu não quero decidir sobre o quê as pessoas deveriam ou não falar, muito pelo contrário. Meu ponto é que eu, enquanto espectador, me vejo atingido por todo tipo de conteúdo ao mesmo tempo (ou com um intervalo de segundos) sem nenhum aviso ou chance de me preparar. Alterando o afeto positivo e negativo repetidamente sem nenhum critério. Sabe quando o Jornal Hoje intercala uma notícia atroz com uma pauta levinha sobre, sei lá, o cachorrinho caramelo que foi adotado pelo posto de combustível e ganhou uniforme e crachá? É tipo isso, só que indo e voltando infinitas vezes e sempre sem aprofundar.
Ao abrir os stories, não sei o que vem por aí. Uma imagem explícita de violência policial ou o show em que esse amigo foi ontem? Uma foto na praia ou um protesto vegano com cenas de maus-tratos contra animais? Uma trend horrorosa de fotos feitas por IA ou um gatinho fofo dormindo?
Então, tenho tentado reagir a isso como posso. Intencionalmente, tenho sido mais criterioso com quem sigo por lá, numa tentativa de ter uma curadoria melhor sobre o conteúdo que me é servido. Estou no Instagram a muitos anos e, por ser uma rede onipresente a essa altura (todo mundo tem conta no Instagram), segui gente demais. Neste momento eu sigo 1844 (mil oitocentos e quarenta e quatro!!) perfis por lá. E isso é depois de ter começado a filtrar um pouco mais. Dentro desse universo de quase duas mil contas, tem de tudo - amigos da escola, da faculdade, de empregos antigos, família, pequenos negócios do bairro, grandes empresas, jornais, criadores de conteúdo de todo tipo de nicho, famosos, ilustradores, fotógrafos, perfis de pets fofinhos, participantes e ex-participantes de reality shows, enfim. Gente demais. Por agora, minha intenção é reduzir principalmente a quantidade de criadores de conteúdo que aparecem no meu feed, e priorizar pessoas de verdade - amigos, colegas, até família. Me livrei dos jornais e grandes empresas, famosos, influenciadores em geral. Curiosamente, é uma relação quase inversa à que tenho com o TikTok, por exemplo. O TikTok, pra mim, não é tanto uma rede social quanto uma fonte de entretenimento. Como quase nenhum conhecido posta ali, estou tentando deixar essa como a rede de seguir criadores de conteúdo, humoristas, bobagens em geral, e o Instagram como uma rede pra ver pessoas de verdade.
Sei que esse é um processo falho em si mesmo - escolho deixar no meu feed um influencer de quem genuinamente gosto só pra que ele poste, no dia seguinte, uma trend com o ChatGPT 🤢 - mas é como eu tenho tentado lidar. Parte da ideia também é deixar o Instagram menos interessante mesmo, pra ver se assim uso menos (um pouco menos) essa droga.
Aqui não tem caixa de comentários (ainda bem), mas se você quiser falar comigo esse é o meu perfil no Mastodon e esse é o meu e-mail 😉