às vezes, escrevo

Marina and the diamonds

Há um tempo, esbarrei com esse lindo texto do Thalys Braga na Piauí sobre a Madonna. Digo, é um texto sobre a Madonna, mas é também um texto sobre a importância das divas em geral para lgbtêres em geral. Acho que a Marina é o mais próximo que eu tenho de uma diva como o que o Thalys descreve. A Marina esteve comigo no meu adultecer e em fases em que eu realmente não tinha com quem conversar sobre o que tava acontecendo comigo, o que tava pensando e sentindo. Esse texto é um mergulho nessa relação.

Não consigo me lembrar de muitos dos detalhes, então devem ficar lacunas por aí. Acho que a conheci pelo Electra Heart, como a maioria dos fãs dela. Então, o cenário era mais ou menos assim: eu, um jovem de 18 pra 19 anos, indo morar sozinho em outro estado pra fazer a Federal em que eu consegui entrar com minha nota do Enem. Eu, um jovem de 18 pra 19 anos, começando a ter a coragem de dizer por aí que não era hétero (ou pelo menos de sugerir, de deixar no ar, de... parar de esconder). Eu, um jovem de 18 pra 19 anos, precisando desesperadamente me sentir à vontade com o feminino em mim mesmo, me deparando com um álbum de uma Loira™️ encarnando (de um jeito quase satírico) um monte de arquétipos femininos, gritando por aí que ela sabia exatamente quem era e que tava perfeitamente no controle !! (mas que também tava morrendo de solidão e medo quando ninguém tava olhando).

Esse álbum me fisgou de uma forma surreal. Pra contexto, era 2014, 2015 (faz MAIS DE DEZ anos meu deus), o auge do tumblr. (Deve ter sido lá que eu conheci esse álbum, aliás, porque a estética toda dele é pensada para e funciona muito bem no tumblr). Eu estava morando sozinho pela primeira vez na vida, de modos que nada me impedia de ouvir esse álbum em loop. O. Tempo. Todo.

E eu ouvia mesmo.

O conceito todo desse álbum foi meio mágico. A Electra (o alter-ego da Marina que dá nome ao álbum) era uma personagem interessantíssima pra mim na época, alguém com quem eu podia de alguma forma me identificar. Ela falava sobre não poder ter sido ela mesma no passado, sobre ter sacrificado a própria juventude meio que contra a própria vontade, por causa de algum tipo de ideal, de pressão familiar e cultural que ela não entendia bem. E a Electra era, ela mesma, uma forma de escapar disso tudo, uma tentativa quase desesperada de se reinventar.

QUEM NUNCA cortou o próprio cabelo e tingiu o resto de loiro como um recurso psíquico pra transicionar em um personagem muito mais empoderado do que você é de verdade???

O álbum tinha uma proposta visual muito forte, vários clipes que, juntos, vão meio que contando a história dessa personagem. A infância e adolescência das quais ela teve que abrir mão e a tentativa de viver essa liberdade recém-adquirida mas com a qual ela não sabe muito bem o que fazer. Então ela meio que sai pulando de relacionamento em relacionamento, alterando posições de poder e submissão, tentando provar pra si mesma de novo e de novo que ela tá por cima do babado:

esse clipe mereceria um texto só pra ele. O jeito como ela observa o bofe, como se estivesse tentando aprender com ele. Ele joga a tinta na tela, ela observa. Depois ela joga o balde de gelo nele igualzinho. Ugh. arte

O álbum anterior, The Family Jewels, tem algumas músicas nessa mesma pegada: em Oh No! ela canta coisas como "Cause I feel like I'm the worst/so I allways act like I'm the best" e "I know exactly what I want and who I want to be/I know exactly why I walk and talk like a machine", que me falavam muito sobre essa compensação: sim, eu SEI EXATAMENTE quem eu sou, porquê a pergunta????!

Wish I'd been a, wish I'd been a teen, teen idle/Wish I'd been a prom queen, fighting for the title/Instead of being sixteen and burning up a bible/Feeling super, super (super!) suicidal

Eu não tinha pensamentos suicidas mas conseguia me conectar muito com essa ideia de adolescência perdida, justamente por todo o lance da sexualidade não vivida (e aqui to falando também de autoexpressão, de falar e me mexer sem ocultar trejeitos, usar as roupas que eu quisesse - saber que roupas eu queria usar! - esse tipo de coisa). O verso "instead of being sixteen and burning up a Bible" me pega muito também, porque logo no final do crisma (ali pelos 16 mesmo, acho) eu meio que rompi com a igreja católica, que até então tinha sido um aspecto relativamente importante da minha personalidade.

Esse álbum pra mim foi como um álbum de libertação. Olha pra Sex Yeah, por exemplo:

If history could set you free/ from who you were supposed to be/ If sex in your society/ didn't tell a guy who he should be/ 'Cuz all my life I've tried to fight/ what history has given me

O Froot foi lançado não muito tempo depois de eu ter descoberto a Marina. Na época eu fiquei maravilhado com a divulgação: ela tinha um site em que lançava a froot of the month, cada froota era um single do álbum, que saía com clipe e tudo. O site tinha uma estética de caça-níqueis num fundo de céu estrelado, muito chique. Até hoje acho que esse é o álbum com o conceito mais consistente e talvez o álbum mais maduro que ela já fez.

Acho que do Froot em diante eu fui me identificando cada vez menos com os trabalhos, embora siga adorando tudo que ela produziu. O Love + Fear, lançado na pandemia, não ficou muito na minha cabeça na época. É um álbum mais longo e com menos hits memoráveis, apesar de ter um conceito legal também. É o álbum de quando ela considerou largar a música e... fazer faculdade de psicologia rs (sério, isso aconteceu mesmo). Muita gente considera o pior da carreira e, vá lá, deve ser mesmo (apesar de eu ainda gostar bastante de deixar tocando de vez em quando). Também foi nessa época que ela cortou o próprio nome artístico e deixou de ser Marina and the Diamonds pra ser só... Marina. Inclusive, o nome desse blog e do meu perfil no Mastodon são um trocadilho com isso. Se antes os Diamonds eram os fãs dela e agora ela não tem mais Diamonds, então sou eu um não-diamante (NotADiamond). Acho ainda mais deliciosamente irônico que essa decisão tenha sido ruim pra ela (Marina? Qual Marina? Marina Sena?) e TAMBÉM ruim pro meu user, que o pessoal sempre lê como Nota Diamond (kkkkkkkkkkkk)

O Ancient Dreams in a Modern Land me deixa com uma certa sensação de vergonha alheia, não vou mentir. Sinto que é um álbum em que ela se levou um pouco a sério demais, tentando com muita força escrever letras tão bem sacadas quanto as do Electra ou do Froot. Só que ela tá em outra fase da vida, o mundo também é outro, as metáforas não funcionam tão bem assim e acabam ficando meio literais demais (Purge the poison é o maior exemplo disso pra mim). Fica parecendo que ela já disse tudo que tinha pra dizer.

a música é legal, se você conseguir passar pelo sentimento de vergonha alheia. Um pouco como HELLO KITTY rs

Agora, o Princess of Power, de 2025, eu acho um acerto lindo. Tem um bom equilíbrio entre músicas pra hitar (CUNTISSIMO é perfeita) e umas mais esquisitinhas, a cara dela (HELLO KITTY é meio... cringe? kkkkk). A minha impressão é de que ela parou um pouco de se levar tão a sério pra esse álbum e voltou a fazer o que queria fazer mesmo.
Ah, e a boa estética volta com TUDO aqui, ela até aparece de peruca loira de novo!! (uns fãs mais malucos até criaram meio que um headcanon em que a Electra reencarna pra CUNTISSIMO. estou de acordo).

Juro, o clipe de I <3 YOU é impecável, amo muito:

"she looks more human on instagram" é uma frase que estará para sempre na minha cabeça

É muito maluco pra mim como o amadurecimento da carreira dela meio que aconteceu em paralelo ao meu amadurecimento (nenhum dos dois sendo um processo finalizado, claro). Acho que do Froot pra frente, esses caminhos vão se cruzando um pouco menos - não é mais tão comum eu ouvir uma música dela e pensar "meu deus ela escreveu exatamente o que eu estou pensando essa música é PRA MIM", mas ainda adoro acompanhar o trabalho dela e continua sendo minha artista favorita.

Eu comecei a escrever esse post em junho de 2025, e só voltei agora em março de 2026 depois de ver o show dela no Lollapalooza. O mix que ela fez de METALLIC STALLION com Hung Up da Madonna e o público GRITANDO em Froot e depois em CUNTISSIMO mexeram muito comigo 😭 Ser fã da Marina é esse eterno mix de querer que mais gente conheça o trabalho dela (porque é realmente muito bom e muito caro pra mim) com querer apreciar o que já temos. Acho que ela falou em uma entrevista um tempo atrás sobre estar mais satisfeita com o tamanho da audiência que já tem hoje, numa perspectiva não conformada mas mais satisfeita mesmo, de apreciar e de entender que nem todo mundo precisa estar no top 10 do streaming pra poder dizer que deu certo.


Aqui não tem caixa de comentários (ainda bem), mas se você quiser falar comigo esse é o meu perfil no Mastodon e esse é o meu e-mail 😉

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